Alô...
C – comunista / P – profeta / G – garçom
C. estava tomando uma cerveja enquanto lia um livro grosso e volumoso com a foto de um homem barbudo na capa, as pessoas passavam sem olhar pra ele; e ele, olhava para as pernas das mulheres por cima do livro. Mais olhava do que lia, cada página demorava quase vinte minutos para ser lida desta forma. C. começou a ouvir gritos, era uma voz masculina e potente, do outro lado da rua. Olhou brevemente por cima do livro e viu um homem com uma tabuleta pendurada no pescoço, tinham coisas escritas nela, ele estava tão cansado de ler que nem tentou discernir as letras. Continuou fingindo que estava lendo.
O homem gritava muito alto e foi atravessando a rua, com papéis na mão, e vindo em direção ao café em que ele estava, ele fingiu não ver o que estava se passando, o homem continuava falando alto, e ele não conseguia distinguir direito o tom da voz dele. Porém o interessante era que o Homem tinha a mesma barba do outro homem da capa do livro, obviamente não era ele essa pessoa, mas era quase engraçado.
Chegaram à mesa conjuntamente o garçom e o homem, este estendia um panfleto, enquanto o outro colocou uma garrafa sobre a mesa.
P – Senhor, não feche os seus ouvidos, o fim do mundo está próximo.
O cara da mesa acendeu um cigarro.
P – Lute contra os seus vícios! O cigarro, a bebida!
O garçom passou por eles e disse:
G – Noé era alcoólatra, e isso não atrapalhou muito ele.
O homem da mesa riu. O religioso ficou um tanto raivoso. E o garçom foi fazer alguma outra coisa em outra mesa.
P – O corpo humano é um templo, aqueles que não dão valor a essa dádiva, infringem contra o Senhor Deus, pelo caminho do vício, o corpo se destrói, isso além de ser uma ofensa a Deus, torna sua vida mais curta.
O garçom passou pela mesa deles enquanto levava uma bandeja.
G – Noé não era daqueles que viveram, tipo, 500 anos?
Nem mesmo parou. O homem da mesa fez um gesto pra ele pedindo outra cerveja. A que lê respondeu com um sinal de afirmativo.
P – vocês perdem tempo com vaidade, prazeres momentâneos, luxúria! Essa ilusão que nos abate todo dia é o demônio tentando nos enganar.
O homem da mesa parecia estar incomodado com a insistência do profeta. De supetão resolveu mudar de tática, ao invés de ignorar, fez um gestou brusco tirando o livro da frente dos olhos, que num movimento rápido e certeiro foram parar no rosto do religioso.
C – Meu amigo, tome cuidado com o que diz, ta? Em nome da religião, pessoas foram escravizadas, tiveram sua liberdade reprimida, suas vontades ignoradas! O que é preciso é estudo para a população! Para que isso não volte a acontecer. É preciso que se desenvolva o pensamento, e não misticismo barato! – O garçom vinha se aproximando enquanto isso.
P – Estudo? Estudai-vos a palavra de Deus. Pois quem mais causa mais miséria nesse pais são os mais estudados, os que tomam dinheiro do povo são justamente aqueles que têm faculdade! Usam essa sabedoria em benefício próprio! De nada adianta se você não tem Deus no coração!
O garçom fez uma cara de espanto e olhou bem para o profeta.
G – É meio assim mesmo, os corruptos de hoje são os revolucionários de ontem, o mundo dá voltas, é uma pena.
C – Qualquer conhecimento é ruim se mal utilizado. E os pastores? Não exploram o povo? Não tomam dinheiro das pessoas?
P – Eu não tenho igreja, eu prego nas ruas, e não peço dinheiro pra ninguém.
O garçom abriu a garrafa e encheu o copo enquanto dizia.
G – É... Generalizar é ruim para ambas as partes – e disse para o profeta – Você parece cansado, quer um café?
O profeta ficou meio desnorteado, porém acenou com a cabeça dizendo que sim. O garçom saiu.
C – Talvez você não tenha tido chance ainda, todo líder religioso acaba fazendo disso um comércio.
P – Existem muitos falsos profetas por aí, a bíblia diz isso, mas eles serão condenados no final, no apocalipse que está próximo. Todos devem se arrepender. Vejam as misérias que estão pelo mundo! O fim chegará logo, e nenhuma ciência poderá salvar-nos! O fim está próximo.
O garçom vem, e diz enquanto deixa o copo de café em cima da mesa:
G – Ele sempre está próximo! Prever o apocalipse pra daqui a cinco mil anos não assustaria ninguém, não é? – O garçom olha para o profeta e diz: – Temos adoçante e açúcar nas mesas, é só pegar. – E para os dois de novo – Fiquem à vontade.
O garçom sai e vai atender alguém.
P – A grande mãe das prostitutas, a Babilônia, vai renascer, vai ser fundado um império satânico baseado nas leis e no conhecimento leviano do homem. Esse império só cairá com a vinda do Senhor Jesus Cristo! Está em apocalipse 17.
C – Isso já aconteceu. O nome desse governo era império Romano. É uma metáfora... Você sabe o que é uma metáfora?
O garçom passa por eles carregando uma bandeja.
G – Quatro a Três!
O profeta vira o café com uma golada só, faz gesto pedindo mais um café, e fala com força enquanto amassa o copo descartável na mão:
P – Está instituído o império dos pecados, irmão! Você faz parte dele! Todos estão cada vez mais se entregando aos prazeres, todos só querem saber de se divertir e sentir prazeres momentâneos, esse é o império de satanás, o império dos vícios!
C – Aquilo que você chama de demônio, na verdade é a indústria de consumo capitalista, grandes empresas e mídia. Nesse ponto eu até concordo com você, mas isso não foi criado por satanás!
O garçom serve outro copo de café.
G – Ainda bem que a cafeína não é proibida pela bíblia, e que a coca-cola não tem monopólio na fabricação de cerveja.
C – Ainda bem por que?
G – Mais estresse pra vocês, menos gorjetas pra mim. Com sua licença.
O garçom se afasta. O profeta retruca:
P – Tudo está sobre o controle de satanás. Os produtos, a Internet, a televisão, a televisão é de Satanás! Você se apóia em livros, livros mundanos, escritos por homens tão falhos como você e eu.
C – E você se apóia na bíblia. Tá bom. Eu não quero discutir. Vá embora.
O profeta faz cara de desprezo e se afasta dizendo:
P – Muitos serão chamados, mas poucos serão escolhidos. Nem todos os livros do mundo poderão te dar respostas, pois não haverá mais a palavra de Deus para nos confortar. A morte fugirá do homem, por mais que ele a busque. Os rios se tornaram sangue, as estrelas cairão sobre a terra, o sol se tornará frio...
O comunista suspira fundo, e diz balançando a cabeça negativamente:
C – A religião é mesmo o ópio do povo.
O garçom vai passando por lá e diz:
G – Ninguém garante que era só tabaco que os comunistas tinham nos cachimbos.
O comunista perde a paciência
C – Você! Afinal, no que você acredita?
G – Karl Marx! Jesus Cristo! Ambos eram barbudos e achavam que podiam levar as pessoas para um lugar melhor... Mas Jesus foi mais esperto, o lugar dele é inquestionável, não tem como se decepcionar depois de morto, já Cuba, China, a união soviética... Outra cerveja?
O comunista faz sinal de que não. O garçom fica rabiscando algo na caderneta.
C – Mas existem outros lugares também, com propostas novas, por exemplo... Por exemplo, a Albânia!
O Garçom parou e pensou, um pouco...
G – Sabe? Acho que eu prefiro acreditar no paraíso a acreditar na Albânia. – Ele coloca o papel que estava rabiscando em cima da mesa – São dezessete e trinta, incluindo dez por cento de gorjeta.